Os meus 5.000 km em África

Os meus 5.000 km em África

Os meus 5.000 km em África

Desde os 12 anos que viajo. Para além de Portugal e ilhas, conheço também quase toda a Europa, passando pelo continente americano, africano e Ásia, mas só há cinco anos comecei a viajar sozinha… foi uma experiência tão incrível que prometi a mim mesma que a partir daquele momento seria sempre assim, principalmente para quem sobrevive pela primeira vez sem companhia na Índia. Senti que, depois disto, seria capaz de sobreviver sozinha em qualquer parte do mundo e nunca mais parei.

Decidi realizar mais um sonho e conhecer África. Mas não a África “turística”… eu queria conhecer a África Austral, a África Profunda… entender os estilos de vida, as diferentes culturas, os ensinamentos, viver no meio daquele povo e, por ventura, sentir-me um deles. Disse ‘não’ aos hotéis convencionais, aos transportes confortáveis, à comida europeia… isso seria “matar” à partida aquela experiência que eu queria que fosse totalmente genuína. Percorri 5.000 km maioritariamente de comboio, embarquei nesta aventura sozinha e só no local conheci as pessoas que viriam a acompanhar-me, viajantes como eu em busca de novas experiências, pessoas com as quais não tinha qualquer tipo de ligação, amizade ou vínculo. Comecei esta longa aventura na África do Sul, segui para o Zimbabué, passei pela Zâmbia, segui caminho para a Tanzânia e só terminei a viagem quando apanhei o ferry até Zanzibar. Poderia descrever cada cidade que conheci, mas não o vou fazer… o que permanece destas experiências não é o número de lugares que visitamos, mas a intensidade com que os sentimos.

Em África aprendi a ter muita paciência… frequentemente ouvimos o “polé polé” que significa devagar devagarinho… os transportes atrasam-se, as pessoas atrasam-se, tudo se atrasa… mas naqueles países há tempo para tudo e ninguém se incomoda se, por exemplo, o comboio circular com oito horas de atraso (sim, aconteceu-me e estive mais de dois dias fechada dentro de um comboio com atraso). Aprendi também que aquilo que normalmente valorizamos, tais como uma boa casa, um bom carro ou uma roupa bonita, em África não tem importância nenhuma e ninguém nos vai olhar de lado se andarmos a pé, despenteadas ou com a camisola suja… há tantos problemas por resolver naqueles países que isto será, certamente, o menor deles. Numa das mudanças de país, estive quase três dias sem tomar banho, aprendi a desenrascar-me da melhor forma que podia, muitos toalhetes, lavar a roupa em lavatórios e comer aquilo que havia disponível… houve muitas refeições em que a única coisa que comi foi arroz branco e pão. Aprendi a ter uma forte conexão com a natureza e a perceber que ela é capaz de nos dar tudo aquilo que precisamos… Fiquei várias noites a dormir literalmente no meio da savana no Mikumi, adormeci com o ranger dos leões, amanheci com impalas e búfalos à porta de casa… os meus limites foram testados todos os dias, fui obrigada a conviver com aranhas, mosquitos, insetos, centopeias e osgas na cabeceira da minha cama. E não foi por falta de limpeza do quarto… simplesmente aquele é o habitat natural deles e necessitamos ter abertura suficiente para aceitar isso.

Mas apesar de tudo foi com as pessoas que me impressionei mais. As crianças corriam para me tocar… eu sou branca, tenho cabelo liso, não é algo que elas estejam habituadas a ver. Todas elas me agarravam e algumas até abraçavam. Outras mais tímidas olhavam de longe como se eu fosse um ser estranho. Mas nunca, em momento algum, uma criança me pediu dinheiro. Nunca. Aquelas pessoas oferecem-nos o seu melhor sorriso, o seu sentido mais hospitaleiro… não os vemos a chorar, a lamentar, a queixar, a discutir… não vemos nada disso e relembro que não frequentei zonas turísticas, apenas aldeias locais.

E porque nenhuma grande aventura pode terminar de forma serena, no penúltimo dia fiz uma pequena travessia a bordo de um Dhow (embarcação típica usada por pescadores) até à ilha virgem (e não habitada obviamente), Nianembe. No regresso abateu-se uma tempestade tão forte na ilha que temi não conseguir regressar a Zanzibar… ainda assim, embarcamos e no meio de tanta turbulência, ventos fortes e ondas com mais de três metros de altura, o “capitão” começou a cantar e a bater palmas de forma calma e serena… e passados dois minutos já eu estava também a cantar e a bater palmas, tudo para não pensar que aquele barco podia virar ali mesmo. Ele repetia “hakuna matata” que significa “está tudo bem”… o mastro quebrou, a vela voou e quando finalmente nos aproximamos da costa com o barco num estado lastimável, dezenas de pessoas observavam-nos e certamente se questionavam se conseguiríamos chegar à costa. Dada a turbulência das águas, o barco não conseguia avançar mais e pedimos ajuda às pequenas embarcações de pescadores que ali se encontravam. Foram precisos três botes pequenos para nos retirar do Dhow e nos colocar em terra… apesar de tudo foi uma aventura que jamais irei esquecer e cheguei sã e salva a Zanzibar.

Ainda dizem que África é um continente de terceiro mundo… e somos nós quem temos tanto para aprender com eles.

Sobre mim? Márcia Monteiro, 31 anos residente no norte de Portugal, gestora de marketing como profissão, mas viajante a full time em pensamento.

Texto e fotos: Márcia Monteiro

(Se quer partilhar a sua história envie email para aproximaviagem@worldimpalanet.com)

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