Quirino Tomás, o aventureiro português que passou 16 meses inesquecíveis na Ásia

Quirino Tomás, o aventureiro português que passou 16 meses inesquecíveis na Ásia

Quirino Tomás, o aventureiro português que passou 16 meses inesquecíveis na Ásia

Viajante inveterado, Quirino Tomás tem apenas 33 anos mas já passou por muitas experiências inesquecíveis nos destinos que visitou. A maior parte das recordações são positivas, mas quando se lembra das duas vezes em que correu perigo de vida ainda sente calafrios.

Descreve com alegria contagiante os longos 16 meses que passou em diversos países asiáticos como os mais felizes da sua vida, revelando-nos pormenores tão precisos que quase parece que estivemos com ele. E conta-nos em detalhe algumas das suas aventuras, as comidas mais estranhas que já comeu e muito mais.

Quirino fala-nos ainda do seu projeto pessoal, a Hike Land, através do qual promove caminhadas e desporto de aventura em Portugal Continental. Mas o objetivo é internacionalizar a marca.

“Bichinho” despertou na Disneyland Paris

O gosto pelas viagens surgiu-lhe logo na infância. “Apesar das recordações desses tempos serem nebulosas, tenho memórias de um Peugeot 504 azul céu metalizado com tejadilho de abrir. E lembro-me das deambulações que fazia com a minha família. Tenho a certeza de que muito da pessoa que sou hoje, teve origem nos genes que herdei dos meus progenitores nessas primeiras viagens”, sublinha.

No entanto, o momento-chave ocorreu quando tinha 14 anos. “A minha irmã mais velha estava na faculdade e decidiu realizar um InterRail com o namorado. Felizmente, tive a sorte dela me ter prometido que um dia me levaria à Disneyland. Acabei por seguir com eles de comboio até Paris, sendo posteriormente recambiado para Portugal de avião, com a semente adormecida dentro de mim”, revela.

Quirino começou a levar mais a sério a paixão pelas viagens nos tempos da faculdade, depois de ter realizado o seu primeiro “intraRail” – uma viagem de comboio pelo Centro e Norte do país. Seguiram-se dois InterRails em geografias diferentes da Europa.

O objetivo seguinte, logo depois de ter concluído a faculdade, era fazer uma grande viagem. No entanto, não dispunha de dinheiro suficiente e por isso poupou durante três anos, com o objetivo de realizar uma “Odisseia”. A ideia inicial era conhecer a América do Sul e Central, mas depois optou por realizar por terra uma travessia entre Istambul e Pequim. “No início da travessia Turquia-China iria passar pelo Irão e Paquistão, antes de chegar à Índia. E como ainda estava muito verde em questões de viagem, tendo em conta as preocupações maternas, acabei por condescender e inverter o percurso, sendo o trajeto final Pequim – Istambul.

Os melhores 16 meses da sua vida

Esta viagem durou qualquer coisa como 16 meses e jamais será esquecida. “Posso afirmar que esse foi até ao momento o melhor ano da minha vida. Foi um período infinitamente transformador, que me fez aprender e crescer imenso. Lembro-me de nesse período dizer muitas vezes à minha família, que se por acaso morresse na altura, partiria feliz”, confessa.

Não faltam histórias marcantes dessa fase da sua vida. “Podia estar aqui a escrever durante meses, pois teria infinitas ‘estórias’ para contar. Mas guardo com especial carinho as dificuldades iniciais de viajar pela China, sentindo-me um autêntico analfabeto. Na maioria das vezes, nem sequer tinha a noção se estava a viajar na direção certa”, começa por explicar.

Quirino destaca “uma noite passada numa tenda com humildes construtores, numa das montanhas sagradas para os taoístas, na China”. E também “as múltiplas e extenuantes caminhadas em montanhas, vulcões, selvas e florestas independentemente da latitude e longitude”. Ou ainda “o presenciar do nascer do astro-rei em múltiplas montanhas e vulcões ou adormecer embalado pelo som profundo de cânticos budistas num mosteiro perdido numa montanha chinesa”.

E o rol de boas memórias é interminável. “Recordo os múltiplos jantares com chineses, indonésios e timorenses e uma noite de ‘copos’ num arrozal no Bornéu Indonésio. E ainda mergulhos que pareciam saídos do Mundo da ‘National Geographic’, tal a diversidade de vida marinha”.

Uma fase inesquecível da sua vida foi quando viveu durante um mês com uma família timorense. E também lembra com especial saudade a semana em que deu aulas motivacionais a alunos indonésios. Ou quando subir ao topo da Montanha Kinabulu e desceu em nove horas, ficando fisicamente de rastos no dia seguinte.

Na Ásia, começou por rogar pragas às longas esperas em múltiplos autocarros coletivos, mas com o passar do tempo passou a encarar a situação com tranquilidade. E logo percebeu que estava perante gente acolhedora, destacando “o riso das crianças, a serenidade dos anciões e a simpatia e honra da grande maioria dos habitantes locais”.

Perdeu-se na selva do Bornéu

Nem tudo foram rosas nas viagens de Quirino Tomás, que passou por alguns momentos muito perigosos. Nomeadamente quando se perdeu na selva do Bornéu e correu perigo de vida. “Estava a caminho de um encontro com uma tribo seminómada e fruto de uma descrição demasiado vaga optei por determinado caminho. Depois de 15 minutos a caminhar selva adentro apercebi-me de que afinal o caminho/trilho que pensava ser o correto estava errado”, começa por explicar.

“Claro que nesse momento o choque de adrenalina foi brutal e durante uns 30 segundos o meu cérebro apenas me dava indicações do género: ‘Vais morrer aqui. Estúpido. Se não tinhas a certeza relativamente ao caminho, porque seguiste em frente? Vais morrer aqui e ninguém te vem procurar, pois ninguém sabe que estás aqui’. No entanto, à medida que o meu cérebro em stress estava neste processo destrutivo, o meu lado racional tentava manter a calma e o controlo. Respirei fundo um bom par de vezes e acalmei a mente e no minuto seguinte já estava a olhar para uma bússola”, prossegue.

Continuou a raciocinar e conseguiu dar a volta à situação. “Foi o processo ‘óbvio’: se tinha vindo de determinada direção só tinha de caminhar na direção contrária. Claro que falar agora é fácil e o que demorou 15 minutos a caminhar inicialmente demorou cerca de uma hora a percorrer em sentido contrário. Uma vez que só tinha uma linha imaginária para seguir, ainda para mais num terreno muito acidentado, cheio de alçapões e ratoeiras, plantas espinhosas, uma densidade de vegetação que se assemelhava a uma muralha, árvores, galhos e ramos podres que cediam facilmente e que não ofereciam um apoio seguro, desníveis de terreno que surgiam sem aviso, enfim, fisicamente, mentalmente e emocionalmente foi extenuante. A verdade é que passado esse tempo cheguei a bom porto, acabando por encontrar o trilho inicial, do qual nunca deveria ter saído e de ter conseguido chegar à aldeia da tribo seminómada que tanto desejava encontrar”, conta.

O mergulho que ia “dando para o torto”

Houve outra situação em que correu perigo de vida, quando fez mergulho na Indonésia. Tudo aconteceu durante uma aula de um curso de aperfeiçoamento de mergulho. “Algures na minha trigésima aula, felizmente já tinha um pouco de experiência, fui separado do meu instrutor por uma corrente descendente fortíssima, que me arrastou num ápice dos cinco para os 17 metros de profundidade. Felizmente naquele local havia uma parede de coral e apesar de saber que não se devia tocar na mesma, por questões de conservação ambiental agarrei-me a ela como uma lapa, uma vez que o meu instinto de sobrevivência falou mais alto”, começa por explicar.

Nestes momentos de pânico, Quirino continuou a tentar apelar ao seu lado mais racional. “Tive de acalmar-me ao máximo e respirar fundo um par de vezes até a adrenalina baixar um pouco e a racionalidade voltar a imperar. Afinal de contas, naquele ambiente o ar não é infinito e o cérebro tem de tomar algumas decisões acertadas. A solução encontrada na altura foi escalar a parede de coral para sair daquele ambiente hostil e demoníaco. Cheguei ao topo com alguns cortes e marcas deixadas pelo veneno de algumas espécies de coral, mas o principal objetivo foi conseguido, sair dali vivo e ileso”, realça.

Não anda a contar o número de países onde já esteve

Quirino confessa que não sabe em quantos países já esteve. “Deixei de contar, talvez uns 30 ou 40, honestamente não sei. Penso que na nossa sociedade se dá demasiado valor à quantidade. Algumas pessoas até podem ter estado em “mil” países, mas só tendo visitado duas ou três cidades desses países, será que podem afirmar que conhecem realmente esses locais?”, questiona.

E garante não ter um destino de eleição. “Não tenho um país preferido, mas posso dizer que gostei de muitos momentos vividos tanto em Mianmar. Tudo devido à sua vastíssima e riquíssima cultura, em que cada cidade já foi capital de algum império em dado momento da história. E também por causa da genuinidade dos seus habitantes. Também posso eleger a China, onde redescobri o gosto pelas caminhadas e pela natureza. E ainda a Indonésia, onde mudar de ilha era como mudar de país”, conta.

A região que menos apreciou foi o sul da Tailândia, “pois apesar de algumas praias e ilhas de sonho”, confessa que se sentiu apenas “um saco de dinheiro ambulante e andante”.

As comidas mais estranhas

No que toca a comidas mais estranhas, destaca o Balut, nas Filipinas – um prato que consiste em ovos de pato, com embriões parcialmente desenvolvidos, que são cozidos como um ovo cozido e a carne de golfinho. E diz-nos que tendencialmente come de tudo, mas de preferência comida feita na hora, “que é sempre mais segura, existindo uma probabilidade mais reduzida de apanhar alguma doença”.

Apesar de só ter 33 anos, confessa que não tem nenhuma viagem de sonho ainda não realizada. “A minha viagem de sonho está feita, foram os 16 meses na Ásia. A partir daí e sem pressões, quis continuar a viajar ao longo da minha vida, independentemente de ser no estrangeiro, ou em Portugal, este paraíso à beira-mar plantado. E tenciono fazê-lo de preferência a caminhar. Afinal os andarilhos/caminhantes são pessoas de bem com a vida, com a natureza e cujo espírito curioso e benevolente lhes permite fruir das coisas mais simples e belas”, sublinha.

E descreve o que de mais belo já observou nas suas múltiplas viagens. “O nascer e o pôr do astro rei, a bruma que voa entre vales e montanhas, os rios que correm, o fragor das cascatas, picos imponentes coroados de luz e sombra, árvores intemporais, aves graciosas que voam nos céus, o som de folhas a restolhar e galhos a quebrar sob o peso dos seus passos e a leveza do seu espírito… os andarilhos são os reis do silêncio e do vazio, chegando onde ninguém consegue chegar e onde os seus passos os levam, percorrendo as distâncias que separam a realidade do sonho”, destaca.

A Hike Land, o seu projeto pessoal

Hoje em dia, Quirino dedica-se a um projeto pessoal, a que deu o nome de Hike Land. “Somos uma empresa de animação turística que se dedica à exploração das zonas mais desconhecidas e selvagens de Portugal, sendo a nossa pedra basilar a organização de caminhadas e viagens/atividades que englobem a componente de pedestrianismo e aventura”, explica.

Neste momento inicial, a Hike Land opera sobretudo em Portugal Continental e Ilhas, mas o objetivo é vir a realizar atividades com uma forte componente de pedestrianismo no estrangeiro.

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