O testemunho mais sincero: «Até para o ano? Não, ser peregrino é para sempre!»

O testemunho mais sincero: «Até para o ano? Não, ser peregrino é para sempre!»

O testemunho mais sincero: «Até para o ano? Não, ser peregrino é para sempre!»

Demorei até começar a escrever este texto. Parecia que não sabia como começar. E realmente não sei. Escrever sobre esta viagem não é fácil, mesmo para quem escreve todos os dias. Não é difícil pelo destino, mas pelo que sentimos quando a ele chegamos.

Talvez seja melhor começar pelo princípio. Este foi o quarto ano em que além de mulher, filha, neta, jornalista, namorada, prima, amiga, etc… Fui peregrina. Digo ser, porque quem caminha com fé tem de senti-lo, vivê-lo, sê-lo. Não se caminha até Fátima de espírito leve como se come um gelado na baixa lisboeta. Caminha-se até Fátima com os pés, com a cabeça e, acima de tudo, com o coração.

Parti do Cartaxo, a minha terra natal, no dia 4 de maio, às 8:00. O ponto de encontro com o Grupo de Jovens de Aveiras de Cima foi na igreja da cidade. Pela primeira vez, ofereci-me para ler a oração da manhã. Li perante os 196 companheiros de viagem que fizeram com que este grupo batesse um recorde em número. Nunca fomos tantos.

Li e preparei-me para começar os 70 e alguns quilómetros que tínhamos pela frente. Entre estrada e terra batida, entre sol e vento, entre campo e cidade. Do Cartaxo ao Vale de Santarém, do Vale à Póvoa de Santarém, da Póvoa à Torre do Bispo, da Torre a Pernes.

Começa a doer um dedo, paramos, oramos, continuamos como se nada fosse. Faz-se uma bolha, paramos, cantamos, continuamos como se nada fosse. É incrível o que a entrada numa simples igreja que, muitas vezes, não tem espaço para os quase 200 peregrinos, pode fazer por nós.

À velocidade da luz passaram 34 quilómetros, entre conversas engraçadas, pensamentos refletidos e silêncios contempladores.
Descansamos a primeira noite no quartel de bombeiros de Pernes. Não há camas, apenas uma esteira. Não há um repasto, apenas uma sopa. Não há uma banheira com água quente, apenas um duche partilhado. Mas são pequenos nadas que nos sabem a tudo.

As poucas horas que dormimos são as melhores do mundo, o prato de sopa que comemos é o melhor do mundo e o banho rápido que tomamos é o melhor do mundo. Sentimo-nos renovados para mais um dia.

Às 3:30 da manhã, começamos a acordar. Entre bocejos e «bons dias», vestimos os coletes refletores para mais uma etapa. A maior etapa. São 40 quilómetros até ao Santuário de Fátima.

Apesar do pouco uso durante a viagem, nesta altura os telemóveis têm uma função essencial: a lanterna. Lanterna que nos guia por um caminho de terra batida, sem luz, até que o dia nasça. Durante a caminhada não há Wi-Fi, não há Facebook, não há Instagram. Mas a luz é essencial.

De Pernes a Alcanena. À nossa espera está um pequeno-almoço digno de filme, à escolha, num café da cidade. Os pães de Deus são os melhores. Mesmo que não sejam, sabem como se fossem os melhores.

Rezamos, oramos, cantamos, continuamos. Minde é a próxima paragem, a paragem mais longa deste dia. É nesta altura, a meio do dia, que paramos, almoçamos um prato cujos hidratos de carbono parecem formar uma montanha, e espalhamos plásticos pelo chão para descansar.

Pernas ao alto contra a parede. Quem olha e não caminha, não percebe o significado. Mas aquela é talvez a posição mais desejada de quem está a andar desde às 4h30 da manhã e só quer conseguir reconhecer os tornozelos. Ninguém disse que agradecer a Deus era fácil.

Há um apito e um novo começo. Cada passo custa mais que o outro. Cada subida parece maior. Cada momento parece mais longo. Apetece perguntar como as crianças nos carros: «Falta muito?».

Depois de Covão do Coelho «só» falta a reta de Fátima. A RETA. A senhora RETA. Uma passadeira laranja que parece não ter fim. Até a unha do dedo mindinho dói.

Ao longe avista-se uma bomba de gasolina. Não, não temos carro. Mas esta bomba de gasolina é especial. Tem espaço para nos sentarmos! Tem gelados! Tem casa de banho! Temos nela um dos últimos momentos para repousar, recuperar e voltar a andar.

São os últimos cinco quilómetros. Cinco. Como diria Jorge Jesus, são «peaners» para quem já andou 70. Mas não. São difíceis.
Acaba a passadeira, acaba a subida, começam as rotundas. São três, até à desejada rotunda dos pastorinhos. A felicidade começa a substituir a dor, as lágrimas de emoção começam a substituir as queixas, a paz começa a substituir a agitação.

Chegamos. Nossa Senhora espera-nos para uma consagração de joelhos. O Santuário sossega para receber os 197 peregrinos. Já cá estamos.

Não se contêm as lágrimas nem os abraços. Não se contêm os agradecimentos nem as esperanças. «Põe-te à estrada como peregrino», ainda tens de chegar ao seminário, é só mais um quilómetro a braços com quem ainda conseguir ajudar. Nunca chorei tanto de dor como este ano, mas também nunca pus a hipótese de desistir.

No Verbo Divino, local que nos acolhe, há uma sopa, um prato, um paposeco que se desfaz em migalhas. Há uma cama com lençóis brancos e suaves. Há um banho com água quente.

Amanhã é outro dia e a viagem que acabámos de fazer não se esquece. As dores são como as do parto, há algo maior que nos faz sorrir. Até para o ano? Não, ser peregrino é para sempre.

Texto e fotos: Mariana de Almeida
< >

Partilhar Artigo

Top