«Hasta siempre, Cuba!»

«Hasta siempre, Cuba!»

«Hasta siempre, Cuba!»

Desde que nos conhecemos que não parámos de viajar. Ora em Portugal (como é que é possível ele não conhecer o Gerês? Os Açores?) ou por outros países (nesse aspecto, ele dá-me dez a zero nas viagens). É a escolher voos, a planear percursos, a criar roteiros que nos sentimos a 100 por cento. «E o próximo, qual é?». Ouvimos esta pergunta repetidamente: vinda de amigos, de colegas, da família, dos pais.

Meses antes, decidimos que o próximo destino ia ser Cuba. Cuba era um destino repetido para ele que, há alguns anos, tinha visitado Havana e Varadero, no habitual pacote turístico. Desta vez, queríamos mais. Não só para variar e para ser uma viagem diferente para ele, mas porque a nossa curiosidade ia bem mais além disso.

Pesquisámos, olhámos para o mapa, fizemos cálculos. Partimos para Cuba em dezembro com a certeza que iríamos visitar Havana, Cienfuegos, Trinidad, Santa Clara e Cayo Santa Maria – mais recatado e menos turístico. Remedios foi a cereja no topo do bolo, adicionada à última hora, num cenário digno de filme de há décadas.

O carro clássico de 1954 estava à nossa espera no aeroporto, conservado como o tempo e as capacidades do país permitem: brilhante, possante, imponente. Não há outra maneira de conhecer Cuba se não num carro clássico, que nos transporta diretamente para tempos já idos. Não somos loucos: os carros clássicos de 1954 encarnam em Cuba com estofos renovados, bons sistemas de som e, claro, ar condicionado dos tempos modernos. Só o sistema de fecho necessita de formação prévia, que um carro de 1954 é para ser tratado como se de uma relíquia se tratasse.

Havana – a Habana Vieja e também a Havana nova, com tanto para dar – é aquilo que esperávamos dela, com recentes novidades (telemóveis com «maçãs», refrescos produzida no México) a parecerem apontamentos a quebrar o feitiço que os prédios coloridos, os carros clássicos, a música ao vivo em cada esquina, têm em nós. Sentimos a cidade a respirar vida, cultura e uma explosão de cores a cada minuto.

Até Camões – aqui, sem a sua pala – se rendeu a Havana e por lá ficou, em estátua, ao lado de Cervantes e Hemingway. Regámos a nossa passagem por Havana com mojitos da La Bodeguita del Medio (se Ernest Hemingway, Fidel Castro e Nate King Cole puderam, porque não poderíamos nós?!) e daiquiris na Floridita, mas foi a Fabrica de Artes, pujante na forma como nos apresenta as variantes da arte Cubana, que nos fez pensar: «Queremos levar isto para Portugal».

Depois de Havana, encontrámos a verdadeira Cuba. Não que Havana não o seja, sim. Mas a Cuba que nos conquista o coração está para lá desses portões. A primeira paragem, Cienfuegos, fez-nos perceber que o mundo cabe num miradouro em que só entra uma pessoa de cada vez. A avenida principal, cheia de turistas e locais, diz-nos que voltámos atrás no tempo. E é por ali que desembocamos na Praça José Marti, a principal e onde se encontram os principais edifícios.

Saindo do centro da cidade, Punta Gorda dá-nos cores berrantes e mar a perder de vista. No caminho até ao ponto seguinte, uma paragem num «restaurante» à beira da estrada, numa mesa talhada na madeira, num banco de pele curtida. À sombra de uma árvore, comemos um delicioso prato de carne. Desde quando é que em Cuba não se come bem?

Em Trinidad, as raízes. A vontade de entrar pela porta de cada casa, de espreitar por cada janela. As fachadas coloridas e as grades, em estilo colonial, escondem-nos o dia a dia de artesãos que saem à rua diariamente para vender os seus produtos, de músicos que tocam na sala de cada casa com a alegria de quem está num recinto com milhares de pessoas, de rituais de Santeria que nunca esperámos ver. Andar nas ruas empedradas a seixos arredondados é uma aventura, mas nada que se assemelhe a estar numa discoteca dentro de uma gruta. Lembro-me de oscilarmos entre estupefacção por estarmos em Cuba, dentro de uma gruta, a ouvir e dançar Bruno Mars, e o receio que, com a vibração, alguma estalactite nos desabasse na cabeça.

E a Playa Ancón? Um paraíso de águas cristalinas e quentes, quase tão inesquecível como os miradouros para a Sierra del Escambray ou o Parque Cubano, com a cascata e o cenote onde mergulhámos. Uma canchánchara para brindar a isto! Santa Clara exclama história. Seja no túmulo de Che Guevara, seja no Tren Blindado. Ou numa esplanada com torradas e sumos naturais a menos de cinquenta cêntimos, enquanto nos enquadramos no quotidiano dos locais. «Aceitam CUCs?», perguntamos. Respondem que sim e calculam a conversão, enquanto nós olhamos estupefactos para a quantidade de comida que temos à nossa frente.

Na esquina, uma feira de artesanato. Os quadros coloridos, as peças em madeira, os charutos cubanos. Levávamos tudo connosco, se pudéssemos. Mas trouxemos as memórias. Também conta, não conta? O caminho até Cayo Santa Maria, onde nos esperavam dois dias de descanso depois da correria de explorar um país que nos conquista no primeiro minuto, trouxe-nos a surpresa.

Remedios retirada de um cenário de Hollywood, e a qualquer momento esperamos ver entrar os cavaleiros e os seus cavalos pela praça principal. Hotéis, restaurantes e cafés imaculados, preparados ao pormenor para a gravação da próxima cena, que não passa da vida real.

Real era também o sabor do gelado de piña que Basílio, o nosso companheiro de aventura (não lhe quero chamar motorista, foi tanto mais do que isso!) nos levou a experimentar. Voltaríamos a Cuba só por isto. E, nos Cayos, as praias de água azul turquesa com aspecto de piscina infinita a perder de vista. Foi a forma perfeita de assimilar toda a informação, toda a alegria, toda a história, toda a música do povo cubano.

Sabem aqueles momentos que nos ficam para sempre na memória? Os dez dias que passámos em Cuba roubaram-nos uma parcela inteira de memória, sugando todo o espaço livre para um ou outro refrão das músicas cubanas que são tanto para além da famosa Guantanamera.

Não vimos, não conhecemos, nem um terço da Cuba genuína. Voltaremos, seguro, para explorar e deixar lá mais um pouco do nosso coração. Hasta siempre, Cuba!

Texto e foto: Ana Coelho, autora do blogue Let's Run Away

 

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